segunda-feira, 8 de outubro de 2012

- Não percebi!?
- O que não percebestes? - disse ele condescendente.
- Não entendi essa, do modo infinitamente ligado e convergente a um sistema universal de espíritos unidos.
- É simples, repara! O mundo desenvolve-se num conceito de expansão onde o homem prolifera sobre as outras espécies, condicionando-as e eliminando-as sistemáticamente. É um pouco como a Lei de Lavoisier, nada se perde, tudo se transforma. Deste modo o que estamos necessáriamente a fazer é algo muito semelhante. Transformamos gnósticamente o espírito universal, sem mesmo nos darmos conta, "recriando"... - Fez uma pausa - Não!... Não "recriando" - disse corrigindo-se, com alguma preocupação - "Reencarnando"! - Acrescentou, fazendo um claro ênfase na palavra - Sim, "reencarnado" a vida no universo espiritual do homem. Por isso observarmos hoje tanto ódio contra o homem, tanta raiva contida, tantos homens no mundo e o decréscimo natural de tudo o que o rodeia e que não pertence ao nicho ecológico direto do homem. Vivemos as almas dos animais que fomos, com toda a carga espiritual, ódio e amor que a transportou desde os tempos primordiais. Encontrar uma alma verdadeiramente velha neste mundo será deveras um prodígio imenso. Quer queiramos insitir que não estamos ligados, ou que estamos, é puramente uma questão retórica que nem pertence à dimensão da Realidade. O fato é que tudo está ligado e nada se perde ou perdeu, apenas se transformou espiritualmente.
Ela lançou a cabeça para trás como se tivesse ouvido uma piada e abriu a boca expirando uma gargalhada baixa.
- Olha F. - Disse com um sorriso malicioso nos lábios, ao mesmo tempo que estendia o seu braço e colocava a sua palma erguida na minha direção - Tudo o que tens, tudo o que sabes, tudo o que foste e serás, está aqui! - três segundos depois, cerrou o punho, levantou-se e bateu-me com ele na testa.

Franco Castelo

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