sábado, 3 de agosto de 2013
A verdade esbate-se com os anos. Enrosca-se na mente, fervilha e liberta o vapor, enferruja, apodrece e transforma-se em pó, fácilmente dizimável pelo vento que sopra. Para que interessa então a verdade!? Interessa tanto como a necessidade do homem viver em sociedade. Mas neste caso, se interessar ao homem viver em soviedade, porque terá de chamar a esta coisa a verdade? Nunca o é... A verdade não é partilhável, se o fosse haveria uma e única percepção, sentimento e compreensão da realidade, mas mesmo em pequenos grupos não é isso que acontece, quanto mais em sociedade. Talvez possamos dizer que existe uma "coisa parecida" e que essa deveria ser a terminologia utilizada em vez do termo "verdade". Não alimentaríamos os brincalhões da retórica e talvez não tivéssemos tantas razões para os odiar tanto.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
O Ponto no círculo II - O olho
A Velha encontra-se novamente naquela posição: Ereta, com as costas pronunciadamente direitas e a cabeça ligeiramente pendida para o lado esquerdo, como se observasse algo e o estranhasse. As mãos pendem-lhe e os braços estão hirtamente extensos. De costas para mim, consigo ver-lhe o cabelo cinzento de laivos brancos, selváticamente composto, cair-lhe desequilibradamente até ao meio das suas costas. A Saia comprida estende-se até aos tornozelos quebrando nos pés sujos e nus que se apoiam no solo fresco da manhã. Rio-me, com uma sensação patética crescente de que a sua figura parece que flutua. De repente, vira-me a sua face e sinto o peso dos seus olhos fitar-me com especial atenção. Numa voz crua diz-me: - Costas para o Sol. - Eu fico ligeiramente aturdido com a forma e a acidez como o diz, o que me faz sentir existir uma necessidade emergente de executar rápidamente aquilo que diz. Ela volta a falar e desta vez com mais violência: - Costas para o Sol. - Dou um salto e levanto-me. Meio confuso ainda, coloco-me ao seu lado, mas ligeiramente afastado e mantendo as costas viradas para o sol. A Velha dirige-me os seus olhos negros, atravessando-me e eu sinto um receio tremendo em devolver-lhe qualquer tipo de olhar. Suavemente e contrastando com a boca grotescameste aberta e o tom imperativo que usa na sua voz, ela aproxima-se e coloca a mão direita sobre o meu ombro. Imediatamente o meu corpo evidencia o toque e um arrepio penetra frio endireitando-me as costas. Sussurrando-me ao ouvido e estendendo um dedo, ela aponta para Oeste e diz: - Vê e sente. - imediatamente após ter apontado, ela volta a face para Nascente fechando os olhos ao brilho do sol, pronunciando ainda mais as suas rugas faciais e sussurrando novamente, mas mais baixo do que anteriormente diz-me: - Costas para o Sol! - Uma calma anormal inunda o meu corpo, e à medida que os meus olhos se vão fechando, os músculos outrora tensos perdem a sua tonacidade fazendo-me sentir como se estivesse pendurado sobre articulações trancadas e obrigadas a suportar o peso da carne. Uma estranha e confortável sensação preenche-me. - Não feches os olhos. Vê! - diz-me ela novamente, mas desta vez, desenhando um ligeiro sorriso provocador na sua face. Os meus olhos abriram-se e as cores do mundo revelaram-se. - Não há magia nisto. O Problema és tu.
sábado, 26 de janeiro de 2013
7.12
Acordo de manhã. Levanto-me, e ainda com a t-shirt com que durmo dirijo-me para a porta de entrada abrindo-a. Detenho-me com os primeiros reflexos de vento fresco que me abrasam as narinas e abraçam-me a camisa envolvendo-me. Os meus ombros encolhem-se e o meu peito chama por mais ar enchendo-se e comunhando com a têmperatura, que na sua claridade matinal preenche-me os olhos de lágrimas.
Franco Castelo
Franco Castelo
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