terça-feira, 14 de junho de 2011

Acordar...

Rua abaixo, vejo um homem a olhar fixamente sobre a ria que passa. Permanece numa figura estatual. Ombros caídos, olhar estupidificado e laivos de preocupação nos traços da face. As mãos pendem-lhe como se não fizessem parte do seu corpo, mas antes, como se fossem objectos que segura com indiferença. A boca semi-aberta, parece desenhar o início de uma palavra qualquer, fazendo-lhe tremer o queixo. De repente, sobe o braço arrastando consigo o adereço do que parece ser a sua mão, apoia-a sobre o gradeamento ao nível dos seus olhos flectindo com uma parcimónia anormal o seu cotovelo. O chapéu, apesar de apoiado sobre a sua cabeça, está ligeiramente inclinado para trás, ridicularizando ainda mais aquela figura. Tento ver o que olha! Ao mesmo tempo, penso em não sair de um estado normalizado que pareço estranhamente adquirir quando ando na rua. - Mas não sou só eu!?- Penso para mim mesmo. As pessoas parecem vestir um estranho fato quando andam na rua. Algo semelhante a um fato espacial, que parece proteger-nos da radiação solar, da falta de oxigénio, do frio sideral,... das emoções e sentimentos dos outros! Ao longe, na Ria, na areia molhada, sobre uma fina superfície de água que escorre sobre a mesma, distingo um peixe. Uma Tainha aparece deitada de lado, o seu corpo permanece imobilizado, numa estranha resignação, como se de facto, consciente do seu estado, esperasse a morte. No entanto, com alguma atenção parece-me possível observar um abrir e fechar da sua boca, como se, por respirar um pouco mais, fizesse um empréstimo por mais um minuto de vida em troca do seu sofrimento. Detenho-me! Os ombros caiem-me, as mãos penduram-se-me, os meus olhos enchem-se de lágrimas e a minha boca abre-se como se quisesse desenhar o ínicio de uma palavra qualquer, fazendo assim tremer o meu queixo.

Franco Castelo

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Que diferença faz...

Sonâmbulo...
Ando e não vivo!
Estou sonâmbulo e não sinto.

Que diferença faz se existo,
Se vivo ou não vivo,
se me rio ou se choro?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Agora"? Não posso pegá-lo!

"Agarrar apenas a raiz original,
não se preocupar com os ramos,
isso é como captar
o reflexo da Lua
numa fonte pura"

Yoka Daishi, in Shodoka - O canto do Satori imediato.