terça-feira, 12 de abril de 2011

Sobre Arte... ou não!?

"O que há a dizer sobre arte?" Talvez não seja a pergunta mais adequada. A objectividade não tem necessáriamente de existir, nem sob uma forma interpretativa com bases psicológicas, psicanaliticas, nem sob um prisma biográfico, social, político, etc... do autor. Afinal a deusificação do homem da obra relega sempre a mesma para segundo lugar, quando de facto o essencial talvez fosse, que objecto se suspende-se do autor. Talvez conseguíssemos dizer, que o autor acabou para obra e que para esta, aquela coisa (o autor) perdeu-lhe o significado e a importância, algures no momento em que pousou o pincel e o óleo na tela secou. No fenómeno efémero de uma criação, parece existir um aspecto banalizador. Isto é, o homem só porque criou, não deixa de beber vinho até à embriaguez, de comer até saciar a sua gula, de jogar às cartas com os amigos, de ouvir as anedotas mais porcas e de se rir delas, de ir à casa de banho urinar e defecar, de chorar quando se sente triste e de foder. A espiritualidade na Arte parece existir até ao momento da sua confecção. Após, resta apenas o registo... e um homem.

Gustavo


Francis Bacon, Três estudos para figuras na base de uma crucificação, 1944.

Ref.: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/1/11/Three_Studies_for_Figures_at_the_Base_of_a_Crucifixion.jpg

sexta-feira, 8 de abril de 2011

W

W. tinha a presença de espírito que assola poucos homens neste mundo. Vinha de um local pequeno, Lauterbrunnen mais própriamente. Montanhas altas, escarpas que induziam a vertigem ao mais audacioso habitante que se abeirasse de uma e ao mesmo tempo, pequenos refúgios de campos verdes, inclinados mas brilhantes, em contraste com o branco dos glaciares em pano de fundo, cascatas intermináveis que pareciam suspender a água num efeito reluzente e festivo de cores que abraçavam o espaço. No inverno, um manto branco estendia-se sobre o vísivel e o invísivel, os homens refugiavam-se dentro das suas casas de madeira ao pé de uma lareira e comiam a carne salgada do ano anterior. Cobriam-se de cobertores e bebiam a cerveja que tinham trocado por leite e queijo com os habitantes de Interlaken cerca de 750 metros mais abaixo... em queda livre. A água tinha um sabor doce e fresco como nunca provaria em nenhum outro lado ou terra que visitasse. Após um gole, refrescava o corpo não só pela sua pureza, mas porque tinha o estranho efeito de invocar, naquela característica frescura, o travo da erva e das flores alpinas que encontrava pelo caminho. W ainda se lembrava dos velhos troncos de Larícios deixados pelo caminho para o viajante repousar e os abrigos de madeira incrustados com os escritos de um sem número de visitantes e habitantes que por necessidade ou simplesmente por capricho quiseram deixar algo, para uma história,... para os que passasem. As palavras sucediam-se e era por vezes possível distinguir algumas frases, no meio de tantas que se sobrepunham, juras de amor, promessas e nomes impronunciáveis de alguém, não importava quem. Ao toque dos dedos, a rugosidade da superficie lembrava-lhe o rosto dos velhos, encarquilhados pelo sol alpino e pelo rigoroso frio invernal. De alguma maneira, este pensamento acalmava-o!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Jaddah

Diz-se que o homem, no momento em que se confrontou com a perda da sua imortalidade, reconheceu duas coisas: A Dor e o prazer. O mundo que o rodeava até então estava inundado de uma natureza estática e inalterável e por complacência na sua dimensão, também ele se tornou mortal. O homem então sentiu mais duas coisas: A alegria e a tristeza. Diz-se que foi a partir daí, que o homem conheceu o significado da beleza e da perda.

O mundo, durante um segundo apenas,... o tempo necessário de um recém nascido sair do ventre da sua mãe e sentir o frio que o rodeia, ou numa vida de cem anos, fendida pelas rugas e as cicatrizes do tempo que passou, este mundo, tornou-se o depósito das lágrimas que derramamos, dos risos que abraçamos e no seu centro, a profunda capacidade de nos lembrarmos! De termos o manifesto poder da saudade.

...quão trágica, bela é a vida!! Mágica,...



Chick Harrity, 1973. Foto no site - http://pixdaus.com/single.php?id=80785