sexta-feira, 8 de abril de 2011

W

W. tinha a presença de espírito que assola poucos homens neste mundo. Vinha de um local pequeno, Lauterbrunnen mais própriamente. Montanhas altas, escarpas que induziam a vertigem ao mais audacioso habitante que se abeirasse de uma e ao mesmo tempo, pequenos refúgios de campos verdes, inclinados mas brilhantes, em contraste com o branco dos glaciares em pano de fundo, cascatas intermináveis que pareciam suspender a água num efeito reluzente e festivo de cores que abraçavam o espaço. No inverno, um manto branco estendia-se sobre o vísivel e o invísivel, os homens refugiavam-se dentro das suas casas de madeira ao pé de uma lareira e comiam a carne salgada do ano anterior. Cobriam-se de cobertores e bebiam a cerveja que tinham trocado por leite e queijo com os habitantes de Interlaken cerca de 750 metros mais abaixo... em queda livre. A água tinha um sabor doce e fresco como nunca provaria em nenhum outro lado ou terra que visitasse. Após um gole, refrescava o corpo não só pela sua pureza, mas porque tinha o estranho efeito de invocar, naquela característica frescura, o travo da erva e das flores alpinas que encontrava pelo caminho. W ainda se lembrava dos velhos troncos de Larícios deixados pelo caminho para o viajante repousar e os abrigos de madeira incrustados com os escritos de um sem número de visitantes e habitantes que por necessidade ou simplesmente por capricho quiseram deixar algo, para uma história,... para os que passasem. As palavras sucediam-se e era por vezes possível distinguir algumas frases, no meio de tantas que se sobrepunham, juras de amor, promessas e nomes impronunciáveis de alguém, não importava quem. Ao toque dos dedos, a rugosidade da superficie lembrava-lhe o rosto dos velhos, encarquilhados pelo sol alpino e pelo rigoroso frio invernal. De alguma maneira, este pensamento acalmava-o!

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