segunda-feira, 25 de maio de 2009

Sobre a Humildade.

Em determinados momentos parecemos mais pequenos do que a grandeza a que aspiramos e que subtilmente, nos tempos que suspiramos, tende em atingir-nos. Aquando um sentimento de felicidade irrompe em nós, as falhas aparecem tal qual um aguaceiro que não esperávamos que ocorresse, depois de sentir o começo de um dia tão bonito que prometia sol e aventura em t-shirt e calções. Agora, apodera-se de nós esta sensação de falhanço total, de tentarmos ser quem queríamos ser. Somos iguais a todos os outros...Falhamos redondamente, e enganamo-nos a nós próprios. Talvez essa mesma sensação de engano seja a pior. Sentimos-nos dissociados de alguém que habitando o nosso corpo tende a dizer e a fazer coisas que fazem arrepender-nos num momento posterior.

Somos parvos e a nossa natureza está cheia dessa característica.


- Arrependi-me da construção arquitectónica literária que dominava há bem pouco tempo.

- Isso é normal – disse ela. – Não ficamos quietos em termos de consciência, quem te disse que o estilo dos vários artistas se mantém estanque ao longo do tempo?

- Isso é demais... não me considero artista...

- Sabes a tua humildade é enjoativa. – cortou ela. – Enches-me de um profundo desgosto em teimar em cultivar um traço de personalidade que me mete literalmente nojo. Já reparaste bem, ou mesmo ponderaste se isso não te está antes a atrasar!? Não será apenas uma desculpa para não fazer melhor.

- Não estás a entender... – disse ele ligeiramente irritado. – É óbvio que quero evoluir, mas preciso de viver isto sobre uma perspectiva diferente, mais intimista, mais espiritual!

- Fantoche!! ... e fantochada. Estás a dar uma palmadinha nas costas a ti mesmo, tal como o menino mimado é acariciado na cabeça pela mãe depois de não ter acabado uma qualquer tarefa por simples pretensão e acusando o ambiente externo que não controla como a causa dos seus problemas. É Patético o que estás a fazer.

- Fico sem palavras para argumentar... eu penso que temos uma ideia de percepção sobre a situação diferente, Diana! Não considero que deva ter pouca humildade e penso igualmente que o que falta neste meio é um maior comprometimento com o facto de tentarmos ser melhores pessoas sendo sinceros connosco mesmo, mas também cultivando alguma humildade,... senão... como evoluir? – O Tom da sua voz saia, apontando alguma desilusão, mas foi adquirindo uma forma mais solene à medida que acabava o que queria dizer, como se quisesse transmitir uma grande conclusão.

- Olha! G.. Não quis de todo magoar-te, mas acho que é necessário seres chocado, abanado um pouco... – Fez uma pausa e com um pequeno movimento de cabeça desviou os seus olhos para de seguida com uma maior determinação, os voltar a colocar sobre os dele. – Aliás que se foda essa merda de não querer que sejas magoado! Acho que devias sair magoado desta história. Há uma coisa que eu acho que se tem de aplicar aos indivíduos de hoje em dia. Principalmente aqueles que querem ser, ou têm a pretensão de serem artistas. É necessária arrogância, é necessária a confiância que daí advém. O acreditar que aquilo que fazemos é bom e vale o investimento. Senão quem vais tu convencer que aquilo que fazes é bom?


Ele agarrou-lhe a mão e de uma forma impetuosa puxou-a para junto de si. Havia uma tensão no ar. Ele sabia que o o próximo passo seria uma agressão verbal mais profunda, onde daí até um momento mais dramático em que cada um deles acabaria por dizer coisas que não queria, seria apenas uma questão de segundos.
Os olhos de ambos cruzaram-se. A face dela ruborizou-se a princípio, mas de seguida retomou uma expressão mais amena, e pouco a pouco mais desafiante. Ele sabia o que tinha de fazer.


Com a mão livre, subiu apoderou-se do braço esquerdo e subiu lentamente até ao ombro, enquanto aproximava a sua face da dela. Do ombro para o pescoço foi tudo muito rápido. Quando deu por si os seus labios já estavam juntos dos de Diana, os olhos cerrados e a pressão do seu abraço aumentou à medida que se deixava deslizar naquele beijo que se prolongava num movimento de cabeça meloso e lento que permitia descobrir todo o sabor da pele macia dos seus lábios e da sua língua. Pouco tempo depois afastou-se lentamente, permanecendo a pouco mais da distância de dois dedos e olhou-a nos olhos.

Numa voz baixa, quase num sussurro disse:

- Não concordo contigo!!


Franco Castelo

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